Mostrando postagens com marcador dicas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador dicas. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

O que há de novo na praça? - Plaza Food Hall, Nova Iorque


Por um instante, o enorme saguão com portas giratórias e um mundo de gente entrando e saindo me pregou uma peça. “Onde estou mesmo? – Pensei. “Na Grand Central Station?”. Não. Estava no Hotel Plaza, em Nova Iorque.

Tinha sete anos quando fui apresentada ao Plaza e me sentia uma liliputiana diante de Gulliver. O enorme hotel renascentista, fundado em 1907, tinha dimensões, beleza e elegância tão avassaladoras que, estranhamente naquela idade, faziam-me sussurrar.

De uns anos para cá, a entrada do hotel parece realmente a de uma loja de departamentos. Talvez esse “espírito” tenha levado a direção a buscar o exemplo do Food Court, dentro do Harrods, em Londres. Apesar de não ter metade de seu tamanho, o Food Hall do Plaza funciona. E bem.

Entre pela 58th e evite o movimento da “Grand Central”. Em seguida, tome a escada rolante em direção ao subsolo e mergulhe no espaço interessante e animado concebido por Todd English.


A entrada parece acanhada mas o Food Hall se desdobra em inúmeros espaços divididos por temas. Há um wine bar, um grill, um “Market” que vende azeites, frutas, especiarias, geleias, chás e outros; um balcão de queijos, outro de pizzas, um sushi bar e também um dumpling bar, e, por fim, um balcão de onde saem deliciosos peixes grelhados.

A seção "to go".

O delicioso balcão de frios...  
...e o de queijos.

Em cada um dos balcões o cardápio de todo o complexo pode ser servido. Na entrada, peça à recepcionista que lhe encaminhe para um espaço específico ou deixe que ela lhe sente no próximo disponível. Desaconselho fortemente o balcão do grill, a menos que goste de sair por aí com roupas e cabelos defumados.
Massas frescas são preparadas diante dos clientes.

O grande salão de mesas comunitárias.
Bom para adultos, crianças e solteiros.
Apesar de ter me sentado no sushi bar, não hesitei
em pedir uma lagosta do Maine do raw bar
no outro lado do salão.
Das opções disponíveis, eu insistiria nos itens do
raw bar, sanduíches e nas massas.
O steak frites.
Os tacos de pato não foram uma boa pedida...
... mas a torta de maçã estava deliciosa.


Qual a diferença entre o Food Hall e uma “Praça de Alimentação”?
Bem, a “praça” é o Central Park, o “shopping” é o Hotel Plaza e a cidade é Nova Iorque. Só...

PLAZA FOOD HALL

Hotel Plaza - Nova Iorque
www.theplaza.com
Fifth Avenue, no Central Park South
(212) 759-3000

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Inspiração e Aspirações - Milos, Nova Iorque


Vocês se lembram de 1997? Eu me lembro perfeitamente.

Em 1997 perdi meu pai.
Em 1997 ganhei um filho.
Em 1997 estava absolutamente decidida a abrir um restaurante.

Também naquele ano inaugurava em Nova Iorque um restaurante grego que estava na contramão de tudo que havia até então. E o que havia? A moda era abusar de manteiga; o peixe era sempre salmão; molhos pesados eram apresentados em um milhão de versões; e a (con)fusão de sabores reinava no prato. A decoração em voga abusava de pisos sintéticos e cores vibrantes, e as luminárias de ferro pintado ziguezagueavam por teto e paredes. 

Quando entrei no imenso salão branco e amplo, com pé direito alto, paredes limpas, vigas à mostra e cozinha aberta ao fundo, percebi a genialidade irritante do conceito: o MILOS estava uns 10 anos adiante de sua época, com uma proposta de 2.000 anos atrás.

Respeito aos ingredientes, peixes fresquíssimos, azeite extra-virgem e uso abundante de legumes e verduras são a base da cozinha milenar grega e é tudo que mais aprecio e respeito em termos gastronômicos. Hoje isso é lugar comum, mas na época simplicidade era sinônimo de falta de sabor, criatividade e técnica.

Apesar da desafetação, o pé direito alto, os belos pratos e copos, cadeiras confortáveis e mesas amplas conferiam a elegância novaiorquina. 

Voltei inúmeras vezes nestes 14 anos e não canso de me encantar. O serviço esquenta qualquer frio norte americano de tão simpático e caloroso, e os pratos são de uma simplicidade espartana incapaz de esconder qualquer erro de cocção ou ingrediente duvidoso.

Uma boa regada de extra-virgem escolta pães e pratos.
Pasta de favas com cebola roxa.
Sardinhas gordas grelhadas.
A divina salada de queijo feta (o legítimo),
com tomates, pimentões, azeitonas Kalamata e pepinos
.
Um Red Snapper (o nosso Vermelho) absolutamente divino.
Fiz a anotação mental de dispensar as alcaparras
que o acompanham na próxima.
Para os que não querem peixe, como meu companheiro
de mesa, um belo naco de Red Angus faz qualquer um sorrir.
Haricots Verts.
O denso iogurte grego de cabra, totalmente artesanal, 
com mel aromatizado com tomilho de Kythera.
Karidopita, o tradicional bolo grego de nozes e canela,
"americanizado" com uma bola de sorvete
.

Saí de lá com um sorriso 14 anos mais jovem que esse e a certeza de que abriria um restaurante simples, para que fosse longevo. 

Vocês se lembram de 1998?
Eu me lembro perfeitamente.
Foi o ano em que abri o Bazzar.

MILOS ESTIATORIO
www.milos.ca/en/newyork
125 West 55th Street (entre a 6a. e a 7a. avenidas)
Nova Iorque, NY
Tel: 212.245.7400

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Quem pagou o pato? Eu, claro. - Eleven Madison Park, Nova Iorque


Não é todo dia que se come um pato como esse. Muito menos tão bem preparado. 


O pato selvagem (ou Muscovy Duck) não é um pato qualquer. É bem maior do que a média, tem carne mais magra e macia, com aroma de caça e, por sorte minha, vinha cantando alegremente até que o chef do Eleven Madison Park, em Nova Iorque, decidiu coloca-lo no meu prato.

“It was not my fault, your honor!
It was D.A.P.P.O.A. (dead and perfectly pink on arrival)!!”

Eu só fiz comer...
A propósito, o pato só é servido quando disponível e para todos os integrantes da mesa.
Em breve, aqui no blog, o post do almoço inesquecível de alguns dias atrás.

ELEVEN MADISON PARK
www.elevenmadisonpark.com
11 Madison Avenue,  Nova Iorque
Estados Unidos(212) 889-0905

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Confissão


É bom que se diga logo: a verdade é que arrumei um amante.

Desde bem jovem me casei com o vinho. Foi um casamento arranjado, é fato. Com meus 12 anos de idade, meu pai, que colecionava bons rótulos, já me incentivava a sentir os aromas daquele líquido mágico e, com um interesse encorajador, escutava atentamente a minha opinião. Em dia de festa me permitia tomar um gole para educar o paladar, o que me enchia de alegria e emprestava responsabilidade às degustações futuras.

Assim cresci, estudei, e bebi todos os rótulos possíveis e imagináveis nos últimos 25 anos. Fora uma breve fase cervejeira na adolescência, meu amor pelo vinho se consolidou e meu respeito pela bebida é absolutamente ímpar.

Um belo dia, no meu aniversário, fui apresentada a meu futuro amante. Meu interesse pela cerveja como produto para os restaurantes era crescente e notório. Talvez numa sessão de análise ficasse fácil descobrir que já havia me apaixonado, sem que me apercebesse. 

Fui presenteada com uma dúzia de cervejas artesanais do Brasil e do Mundo. De início não sabia em que ocasião toma-las. Até que, numa tarde tranqüila e nada especial, sorvi uma Trappistes Rochefort 10. Realmente não esperava... Era quente, impactante, crescente na boca. Bang!  Mergulhei num universo absolutamente cativante de novos aromas, sabores, texturas e corpo.

Depois de montar a carta de cervejas artesanais do Bazzar, me pegava culpada a cada gole que tomava. Olhava sobre os ombros, encurvada, sentindo que traíra o vinho e todos os anos de estudo, degustação e comprometimento. Mas ao contrário do relacionamento já estabelecido e maduro que tínhamos, a cerveja me dava algo diferente, descomplicado, cheio de aventura e sabor. A cerveja me permitia passear com currys, ovos e outros ingredientes, sem qualquer constrangimento. Eu precisava daquilo.

Hoje decidi abrir o jogo: é cerveja no almoço e vinho no jantar. O vinho não reclama; faz vista grossa e dá espaço para minhas aventuras, torcendo para que a cerveja não vença, também, o segundo turno.  Hoje tenho a firme convicção de que há espaço para ambos em minha sede.

Na semana passada, um uísque puro malte me olhou de soslaio... mas essa é outra estória.


Bazzar
Rua Barão da Torre, 538 - Rio de Janeiro
3202-2884 

domingo, 1 de janeiro de 2012

A boa moda - Rare Wine Co.

Os vinhos Madeira andam em voga em Nova Iorque e, em especial, os de uma casa. A Rare Wine Co. criou uma série chamada Historic Series que tem como objetivo recriar um estilo de vinho Madeira que era popular nos EUA nos sécs 18 e 19.

Cada um dos vinhos é dedicado a uma das cidades americanas nas quais o vinho era popular na época. Não à tôa, um dos queridos da cidade é o New York Malmsey, o delicioso Madeira com aromas de café, caramelo e baunilha. Alegria é ver que não é só apelo de marketing; o vinho é correto e acessível nas cartas.

Vai bem com tortas de nozes, pecãs e bolos em geral e fica uma delícia com crème brûlée e alguns queijos azuis.


sábado, 31 de dezembro de 2011

Um Bacalhau em Três Atos - Tasquinha do Oliveira, Évora - Portugal


Primeiro Ato.

Minha mãe é um gênio. Arqueóloga, antropóloga, arqueofísica, geóloga, autora de uns 20 livros, portadora da ímpar “legion d’honneur” e tantos outros títulos que me convenceram, desde a mais tenra idade, a jamais almejá-los, a não ser que quisesse destruir de vez minha autoestima. Meu único consolo é mostrar meus parcos conhecimentos gastronômicos aos quais ouve atentamente, como cabe a uma boa mãe, mas que absolutamente não a impressionam.

Como todo gênio, tem lá suas excentricidades. Nunca abriu um cardápio e faz seu pedido à primeira pessoa que encontra no restaurante, antes ou logo após se sentar. Tudo que se habituou a comer deve ser absolutamente cozido ou fritíssimo, até que não se possa distinguir uma massa de um purê, ou um cordeiro de um pato.


Corta a cena.

Manuel de Oliveira tem mais anos de profissão do que tenho de vida. Durante 27 anos trabalhou na cozinha do respeitado Fialho, em Évora, até decidir abrir seu Tasquinha do Oliveira a apenas uma quadra de distância, no belíssimo centro histórico. Seu pequeno bistrô, com 16 anos de vida, é considerado por muitos melhor que seu predecessor. Nas mãos de pessoas competentes, exercitar os mesmos pratos por 16 anos é uma forma de leva-los à perfeição.

Segundo Ato. Mamãe conhece Manuel.


-       “Mamãe, por favor, não comente que escrevo sobre restaurantes porque tira a naturalidade da coisa.”
-       “Imagine, minha filha... você tira esse troço enorme (a câmera) da bolsa junto com um caderninho preto, fica tomando notas e acha que ninguém vai notar!” – bufava impacientemente. E completa: “Eu quero porco. O porco daqui é do jeito que eu gosto, bem crocante?”.
-       “Não, mamãe. Aqui é outra estória, mas igualmente delicioso”.
-       “Ah, então não é o que eu gosto.” – resmungava ainda mais impaciente, batendo suas unhas umas contra as outras, movimento que, desde minha infância, reconheço como o melhor tradutor de sua ansiedade e, principalmente, de fome.

Fomos as primeiras a entrar no bistrô de 12 lugares. 
Sr. Manuel recebeu-nos sozinho, como convinha ao espaço acanhado.

-       “Duas?” – perguntou friamente.
-       “Sim, obrigada.”
-       “O Sr. tem porco?” – perguntou minha mãe, como de costume, antes de sentar-se.
-       “Certamente.”
-       “Como o Sr. prepara seu porco?” – perguntou mamãe erguendo uma das sobrancelhas e apoiando uma mão inquisidora sob o queixo. Pretendia, é claro, criar mais um discípulo da sua linha gastronômica. Limitei-me a suspirar resignada e olhar para o chão, já exausta...
-       “Nosso porco é assado durante várias horas em seu suco”.
-       “Deixe eu lhe explicar como EU preparo meu porco. Primeiro eu cozinho muito a carne porque tenho horror a porco cru, depois eu asso, asso, asso e frito, frito, frito, até ficar bem crocante, entende? O Sr. pode fazer assim?”

Sabe-se lá em quantos idiomas o Sr.Manuel xingou mentalmente minha mãe, mas tão exausto quanto eu, limitou-se a dizer entre dentes:

-       “Cá não temos...”.
-       “E o seu bacalhau? Veja lá que eu comi um excelente bacalhau em Lisboa, num local bem simples, hein?! O que o Sr. prepara é bem sequinho?”. A essa altura eu tinha certeza de que a única coisa seca que iríamos digerir eram as respostas do Sr.Manuel.
-       “Não, Sra. É dessalgado por vários dias, mergulhado e cozido em azeite até ficar bem macio.”
-       “O Sr. deixa no leite?”
-       “Não, Sra.”
-       “Sei... ahã... pode ser esse. Vamos ver.” – grunhiu minha mãe, sem perder a pose.

Terceiro Ato. A Batalha.


Um delicioso caranguejo desfiado é colocado sobre a mesa.

Cogumelos.
O macio polvo com coentro.
Queijo de ovelha alentejana, cremoso, intenso e untuoso.
Pastéis de perdiz com alhos-poró, de gemer.
Costeletas de cordeiro, empanadas à perfeição,
crocantes e quentinhas. A essas alturas, mamãe,
lambendo os dedos, dizia: "é coisa demais..."
Pataniscas de bacalhau especiais, finíssimas e
delicadamente empanadas. 
Meu prato, um cordeiro assado com batatas.
Com um discreto sorriso nos lábios,
Sr.Manuel dá o golpe de misericórdia e
serve o delicioso Bacalhau à Tasquinha.
O bacalhau é assado no azeite com alho e cebolas,
e vem com purê, alcaparras e sementes de aroeira.
Divino. O melhor que já comi.
A tradicional Encharcada de Mourão e um
Cericá com ameixas Rainha Claudia, 
gordas, suculentas, divinas.
Mamãe gemeu disfarçadamente em alguns pratos, mas não se converteu. Manuel tinha a certeza de que havia impressionado. Despediram-se burocraticamente.

Ao sair, como sempre, ela me lança um olhar terno, carregado de piedade e incentivo, e afirma: “Minha filha, que alegria! Você sempre me leva a lugares incríveis!”

***

TASQUINHA DO OLIVEIRA
Rua Cândido dos Reis 45 - A
Évora
Tel: 266744841
Horário de Funcionamento: das 09:00 às 15:00 e das 17:00 às 24:00
Fechado entre: 1 a 15 de Agosto.






sábado, 3 de dezembro de 2011

Saudades do Alentejo Parte I - Taberna Típica Quarta-Feira, em Évora

Uma a uma, as palavras que compunham este post foram devoradas pelas imagens da refeição simples, mas memorável.

A Taberna Típica Quarta-Feira é uma instituição na cidade de Évora e sua alma tem a forma arredondada e risonha do carismático proprietário, José Dias.

Escondida na poética Rua do Inverno, a taberna não tem cardápio ou carta, mas é lá que amigos se encontram num farto escambo de sorrisos e prosa. A seqüência do dia é uma surpresa sempre agradável como a que descrevo abaixo, acompanhada de vinhos de Paulo Laureano que estampam no rótulo a imagem do dono.

Por sorte, era dia de porco preto...
Para o azar do porco preto, era meu dia.

Adorável redundância:
estive no Quarta-Feira numa quarta-feira.
José Dias, o animado proprietário.


A carne marmorizada do porco preto alentejano,
que faz com que os portugueses o batizem de
o "kobe beef dos porcos".

Queijo cremoso de ovelhas ao orégano.


Entre uma garfada e outra, levantei os olhos e percebi
o ambiente curioso. Retomei com empenho os trabalhos.

Cogumelos paris recheados com coentro...

...em contraste com os cogumelos selvagens com alho.

A amizade com Paulo Laureano rendeu-lhe um rótulo
personalizado e a exclusividade de seus vinhos na carta (que carta?)
Uma belezura feita com Antão Vaz, Arinto e Fernão Pires.


Cachaço de porco preto com batatas coradas ou...
...quando a simplicidade beira a divindade.

Um "esparregado" devidamente desfocado.

Amêndoas para desacelerar.

Marmelo cozido.

Bolo de mel e nozes com encharcada de ovos.
Com toda a irreverência, o Sr.José Dias pega a colher
do seu espresso, retira-lhe a espuma e a
derrama sobre sua sobremesa.
Resultado fantástico que lhe garante garfadas adicionais.

A farra toda custa 15 euros sem vinho, ou 25, com vinho.

TABERNA TÍPICA QUARTA-FEIRA
Rua do Inverno, 16
Évora
tel: (351) 266.707.530
Fechada aos domingos