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quarta-feira, 7 de abril de 2010

Tegui - Buenos Aires

Um muro repleto de propagandas e “street art” é a moldura perfeita para a sólida porta preta que esconde o TEGUI, o novo queridinho de Buenos Aires. O pedigree já estava dado: o chef Germán Martitegui (daí o nome) assinou os pratos do Olsen e do Casa Cruz, dois renomados restaurantes de Buenos Aires dos quais já falei aqui no blog.

Grandes listras brancas e pretas, com piso e teto de madeira laqueada dão o toque oriental que também se encontra no Casa Cruz (um tanto “over” por lá, mas mais harmônico aqui). A varanda é adorável, com inúmeras mesinhas para dois e iluminação agradável. Um recorte no fundo do corredor principal revela a adega. Uma graça. A carta só contém rótulos argentinos, vários com ótima relação qualidade-preço.

O cardápio muda freqüentemente, de acordo com os ingredientes da estação e é curto, como deve ser. O couvert é delicioso, com ampla gama de pães: rústico, com nozes, de batata, com ervas e de cerveja entre outros. Além deles, pequenos blinis com creme azedo e caviar de berinjela. Pra completar, numa pequena colher de prata o amuse bouche: gazpacho com framboesa e folhinhas de manjericão jovem.

Pedi o menu degustação de seis pratos. A ver...

1. Espuma de queijo de cabra com raspas de limão, melão fresco, presunto cru crocante e um fio sólido de aceto balsâmico.
2. Carpaccio de atum vermelho com queijo de ovelhas, framboesas, beterrabas cruas em tirinhas e amêndoas.
3. Ravioli de lagostins com manteiga trufada e pêssegos frescos, com farofinha por cima.
4. Filet Migon (“lomo”) argentino ao chimichurri com base de molho bernaise, purê de batatas carbonizadas, ovo e farofa .
5. De sobremesa, um divino merengue de avelãs com côco, framboesas frescas com ligeiríssima calda de goiaba
6. Frutas de Verão com sorbet de mascarpone e lascas de parmigiano.

A assinatura do chef está clara: todos os pratos têm frutas frescas em pequenos cortes. Às vezes funciona, às vezes não; mas o resultado foi um jantar bem leve, apesar da seqüência farta de pratos. Gostei. E vou voltar.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Triângulo amoroso... 3 restaurantes adoráveis em Buenos Aires.

SIROP, na Recoleta
Vicente Lopez, 1661, Local 11
Tel: 4813.5900
De segunda a sábado, de meio-dia à meia-noite.

Um autêntico bistrô na antiga passagem dos Correios; um ruela sem saída escondidinha no meio da Recoleta. O ambiente é intimista, com poucas mesas. São 7 entradas e 7 pratos, todos muito bem executados. Há quem diga que o pato é a melhor pedida, há quem prefira as massas. Outros dizem que boa mesmo é a pequena carta de vinhos. O fato é que o Sirop é um verdadeiro achado. Na frente, o Sirop Restó, Tea Corner & Pastelaria abriga o salão de chá e a confeitaria, com tortas e outras iguarias. O almoço de lá também é fantástico e os horários são mais generosos. É meu canto preferido de BA.

BAR URIARTE, em Palermo [infelizmente fechado agora em 2011]
Uriarte, 1572
Tel: 4834.6004
Todos os dias, de meio-dia à meia-noite
http://www.baruriarte.com.ar/

O ambiente é informal e animado. Pratos, tapas e saladas interessantes podem ser saboreados em sofás ou mesas tradicionais com vista para o jardim. A cozinha fica logo na entrada, cercada por sólidas prateleiras de aço. A área mais disputada fica em torno do belo fôrno de barro de onde saem saborosas mini-pizzas. O grande galpão branco também tem uma galeria de arte no segundo andar. O happy-hour é “really happy”, com farta carta de drinks. Minha salada de endívias e espinafres com croutons de pancetta, ovo pochê, vinagrette de dijon e azeite de trufas estava uma delícia!

CLUNY, Palermo
El Salvador, 4618
Tel: 4831.7176
De segunda a sábado, de 11hs às 2:00 da manhã.

O restaurante francês Cluny fica numa casa profunda, como a maioria das construções em Palermo. Apesar do pé direito alto, o ambiente é intimista com sofás espalhados pelo salão, iluminação suave e jardim interno. Se o dia for de sol, ficar na varanda é programa disputadíssimo. O serviço foi um dos melhores que tivemos: atencioso e profissional. A comida não está à altura de sua fama, mas o ambiente e a música (finalmente no volume certo) fazem da visita uma experiência mais que válida.

***
E agora um momento "nada a ver" com coisa nenhuma... A quantidade de cães em Buenos Aires e de seus respectivos "passeadores" é de fazer inveja a qualquer arrondissement parisiense. Caminhar pela cidade é tão gostoso que eu levava, numa boa, uma bela "vida de cão"...


sexta-feira, 2 de outubro de 2009

UM OLHAR GULOSO SOBRE BUENOS AIRES

O tango insinua... Viajante, prepare-se! Buenos Aires é ardente como sua música! E o melhor: a um passo de todos nós.

As razões para se enamorar são várias; dentre elas, a Literatura. Lá nasceu Borges, um de meus autores prediletos. Conhecer sua obra é passo fundamental para bailar pela cidade. Na vida das ruas, Buenos Aires não é cenário; é personagem. E perdoa, com delicadeza, o “portunhol” distribuído pelos brasileiros que recheiam a cidade.

Palermo, o bairro em que nasceu o autor, é o coração artístico e cultural da cidade. Jovens designers, ótimas livrarias, inúmeras galerias de arte e alguns dos melhores restaurantes ficam por lá.

Um dia ideal em Palermo começaria num domingo. Tomaria um brunch no Olsen ou no “ultra-cool” Bar 6 e depois cultivaria uma certa preguiça na Praça Serrano (Cortázar). Percorreria a deliciosa Honduras, sem esquecer de parar na Papelera Palermo para engordar a coleção de cadernos de viagens. Atravessaria a rua e devoraria os livros da Prometeo, ao som dos CD´s da Miles Discos. Saborearia cada rua, sem pressa. Após um almoço na varanda do Cluny, passaria uma tarde regada a café na livraria Eterna Cadencia com direito a alfajor “Santafecino” de Borges, discretamente retirado da bolsa. Para aqueles que me equivalem em estômago, um drink no animadíssimo Bar Uriarte seria indispensável antes de um delicioso jantar no Casa Cruz.

Para uma viagem no tempo, recomendo um dia em San Telmo. Seus inúmeros antiquários têm preços de abrir o apetite. Depois de vasculhá-los, encomende o sol e uma cerveja bem gelada na praça Dorrego. Aos domingos há feira de antigüidades e aulas de tango para principiantes. Se seu nível estiver um “passito” adiante, as opções são várias: pra quem quer dançar, a dica é o Niño Bien; se o negócio é assistir, há bailarinos competentes nos famosos Esquina de Gardel ou Señor Tango.

A Recoleta é elegante; um clássico. Suas amplas avenidas, lojas de grife e arquitetura européia constituem o cantinho mais parisiense da América do Sul. Para completar o clima, separe uma tarde para a L´Orangerie do Hotel Alvear. No jardim de inverno da histórica mansão, tome a melhor seleção de chás da cidade acompanhada de música clássica. A especialista Inés Berton cria “blends” de chás verdes, pretos e fermentados. O lugar, por si só, é uma viagem. Outro canto adorável no bairro fica na antiga passagem dos Correios. É a dobradinha do Sirop. De um lado da rua, oferece pratos, chás, tapas e lanches; do outro, a versão alinhada, e igualmente adorável, apresenta pratos mais elaborados e carta de vinhos completa.

O lado Cult do bairro se apresenta na abarrotada Pizzaria El Cuartito, fenômeno kitsch com filas intermináveis e inúmeras fotos, camisas de time, ventiladores e nostalgia pelas paredes. A busca é pela pizza de massa grossa, cheia de queijo, como as de antigamente. Lá o tempo não passou. A cozinha barulhenta e aparente despeja bandejas de inox em produção surpreendente. Todo dia é dia, toda hora é hora.

Puerto Madero também me encanta. Tem um quê de Nova Iorque e Chicago, com um sotaque singular. O antigo porto revitalizado agora fervilha com executivos e atrai investimentos de peso, como o grande complexo do grupo Faena. Lá, todos os caminhos parecem levar à CARNE! A sempre procurada Cabaña Las Lilas é o paraíso dos brasileiros em B.A. Para quem quer ver a renomada arquitetura do Hotel, mas não pagar sua diária, a opção é almoço ou café-da-manhã no EL MERCADO. Phillipe Starck conseguiu traduzir o clima porteño num salão extremamente original.

A busca pelas Obras Completas de Borges pode começar pela belíssima El Ateneo, livraria instalada num antigo teatro no Barrio Norte e continuar, quem sabe, pela Ávila, instalada na Rua Bolívar, no Centro, desde o século XVIII. Na Avenida Corrientes, que já foi o local de maior concentração de livrarias do continente, há inúmeras opções, para todos os gostos e bolsos.

E os vinhos? Ah, os vinhos! Eis aí um capítulo à parte. Os 30 litros per capita consumidos anualmente por lá fazem nossos 2% parecerem um tanto tímidos. Nossa cultura de vinhos, ainda incipiente, é recheada de formalismos e prosopopéias. O porteño trata o vinho com naturalidade. Com raras exceções, as adegas mais cotadas têm lareira, música alta e sommeliers de cabelos compridos e tênis. Imperdível é o Gran Bar Danzón, programa perfeito depois de um dia no Centro, com visita à Plaza de Mayo e sua Casa Rosada (mais rosada do que nunca!) e de um ataque aos “emparedados” (sanduíches) do tradicional Café Tortoni.

Tenho várias razões para gostar da cidade. Como que visitando uma velha amiga, me sinto em casa, apesar de nossas marcantes diferenças culturais. E, por falar em cultura, ainda que a obra de Tarsila do Amaral não tivesse um nome capaz de encantar qualquer glutão, Abaporu, que em tupi-guarani significa “homem que come”, seria parada obrigatória. Quem a exibe é o imperdível Malba (Museu de Arte Latino-Americana de Buenos Aires), que tem exposições temporárias e permanentes de altíssimo nível, além de ser um belo exemplar de arquitetura contemporânea.

Num sentido menos poético do que o atribuído por Borges, re-afirmo: “as ruas de Buenos Aires já são minhas entranhas”. Isso porque comi e bebi quase todos os seus bairros.

Meu gosto pra viagens é assim... vai da empadinha ao foie gras, do kitsch ao chique, do “cult” ao “pop”, da arquitetura à paisagem. Para famintos como eu, Buenos Aires é um cardápio completo!

PUBLICADO NA REVISTA LONELY PLANET, EM SETEMBRO DE 2009